A literatura oral folclórica sergipana é bastante rica. Os estudiosos a dividem basicamente em Poética (cantoria de improviso, adivinhações, cordel e versos) e Narrativa (mitos, lendas e estórias ou contos).

 

A LITERATURA POÉTICA FOLCLÓRICA

VERSOS

Os versos de cantos populares sergipanos abrangem temáticas diversas: imaginário sobre o fim do mundo; festas juninas, saudações à cachaça; respostas à perguntas de outrem; mágoa e alegria; dificuldades da vida; cantos de trabalhadores (plantadores de arroz do São Francisco, pescadores do litoral, vaqueiros do sertão, etc.); cantigas de ninar e versos amorosos. Vejamos alguns exemplos:

Água de cana é cachaça
Concha pequena é cuié
Língua de véia é a desgraça
Bicho danado é muié.

 
No abrir desta cartinha
Você vai logo encontrando
Meu coração ôs pedaço
Meus óio por ti chorando 
 
Se S. João soubesse
Que era hoje o seu dia
Descia do céu à terra
Com prazer e alegria
 
Difícil é veio sem dente
Chupar rolete de cana
Difícil é se fazer feira
Sem trabaiá na semana,
Difícil é se ouvir pancada
Sem se bulir com as pestana
 
Coco só do Aracaju;                 Fumo tem bom no Lagarto
Manteiga, do Arauá Cebola,    na Itabaiana;
Feijão de Campo do Brito;       Nossa Senhora das Dores
Arroz, só de Propriá                 Algodão, milho e banana

ADIVINHAÇÕES

As adivinhações sergipanas não são muito diferentes das dos demais estados do nordeste e até mesmo do Brasil.

São provavelmente originárias de combinações de antigos enigmas dos portugueses, com pequena influência do negro e do índio.

As adivinhações eram até bem pouco tempo uma das brincadeiras prediletas das crianças, quase sempre à noite nas calçadas, nos terreiros ou alpendres.

Abaixo alguns exemplos para ilustrar:

O que é o que é?...

"Um velhinho pequeno de carinha bexigosa?"

Dedal

"Pé redondo, rastro comprido?"

Carro

"Anda deitado e dorme em pé?"

Pés

"Tem pé mas não caminha, tem olho mas não vê tem barba mas não faz?"

Cana

"De dia está andando e de noite está no canto?"

Vassoura

CORDEL

A literatura de cordel é pouco estudada em Sergipe, porém sua produção é muito grande. Em muitas feiras do interior e no mercado de Aracaju ainda existe vendedores-autores de livretos de cordel. Esses livretos medem 11x16 cm, tem dimensões de livros de bolso. A grande maioria das capas trazem um desenho, o título e o nome do autor impressos em xilografura. Todas as páginas dos livrinhos de cordel são numeradas e o número varia de 8, 16 e 32 páginas.

As composições são também variadas: sextilhas, sétimas, oitavas e décimas. O que realmente importa é a rima, mesmo o poeta popular usando falsos ditongos como sílaba única. A composição rítmica de uma história é a mesma do começo ao fim.

Alguns dos mais conhecidos cordelistas de Aracaju nas décadas de 1950 e 1960, lembrados por Carvalho Neto são os seguintes: Pedro Alves da Silva, Manoel de Almeida Filho, José Marins dos Santos, Severino Milanez, José Pacheco, Manoel Serafim, João José Silva, João Ferreira da Silva, entre tantos outros.

As temáticas da Literatura de cordel são extremamente amplas e variadas: o cangaço, política, amor, crime, sobrenaturais, fantasias, valentia, etc. Vamos citar alguns títulos:

"As aventuras de Neguinho e Jandira"

"O encontro de Lampião com o Diabo"

"O casamento do Urubu"

"A briga de Zé Gaiteira na casa de João Rudela"

"A vitória de Floriano e a Negra Feiticeira"

O herói da Meia-noite e a Princesa Encantada"

"O homem que deu sangue ao Diabo"

"A história de Vicente o rei dos ladrões"

"A briga de Maria Fateira com o Fiscal da Prefeitura"

Dois Cordelistas Sergipanos

Apresentamos neste quadro duas pequenas bio-bibliografias de dois dos mais atuantes cordelistas sergipanos da atualidade: João Firmino Cabral, sexagenário e experimentado nas rimas do cordel fiel a tradição da cultura nordestina. E José Antonio dos Santos, que cria seus livretos inspirados na realidade social brasileira e na militância dos movimentos sociais.


João Firmino Cabral

João Firmino Cabral é filho de Itabaiana / SE e escreve livros de cordel a 45 anos. Já publicou mais de 58 obras do gênero. No ano de 1976 ganhou o primeiro prêmio do concurso de literatura de cordel da Universidade Federal de Pernambuco; em 1978 recebeu prêmios de literatura de cordel da Caixa Econômica Federal, dos SESC e SENAC; em 1982 ganhou a medalha de menção honrosa da Universidade de Campina Grande. Em 17 de março de 2001 foi condecorado pelo prefeito de Aracaju com a medalha do Mérito Cultural Inácio Barbosa.

Atualmente João Firmino possui uma banca no mercado Antonio Franco, na qual vende livretos de cordel de sua autoria e de outros escritores. Além da banca no mercado o escritor vende suas obras em escola de Aracaju quando é convidado para dar palestras sobre a literatura de cordel.

As principais obras de João Firmino são:

  • A vingança de um inocente;

  • Amor e martírio de uma escrava;

  • A revolta de um escravo;

  • O mostro sem alma;

  • Os heróis do destino e o monstro da mata escura;

  • O pistoleiro vingador;

  • As lutas de Jurandir e o amor de Lucimar;

  • A feira do pobre no tempo da carestia;

  • A prisão dos pistoleiros de Santa Brígida;

  • A morte do coroné Ludugero;

  • Os martírios de um professor;

  • É crime não saber ler;

  • A saga de lampião;

  • O exemplo da moça que dançou lambadão no inferno;

  • A coragem de um vaqueiro em defesa do amor;

  • A profecia do jumento que falou no Nordeste;

  • O exemplo do ateu e o vaqueiro que tinha fé em Deus;

  • O encontro de Lampião com o coronel Pinga-Fogo


José Antonio dos Santos

José Antonio dos Santos nasceu em Oiteiros , povoado de Moita Bonita /SE filho de pequenos agricultores. É licenciado em História pela U.F.S. professor da rede pública estadual. Além de militante de movimentos populares.

Zé Antonio tem proferido palestras sobre Literatura de Cordel em escolas das redes públicas e particular de ensino. Em 1999 recebeu o prêmio Albert de Cultura, do colégio Albert Einstein ( atual Colégio Intellectus).

Como poeta popular já publicou mais de 35 obras, entre as quais se destacam:

  • O sofrimento do nordestino;

  • O guerreiro de Belo Monte;

  • A história de uma mulata que teve um filho sobrinho;

  • A história do fazedor de marajás;

  • A história do homem da floresta;

  • A história do ouro negro de um reino tropical;

  • O peão da construção;

  • Lampião : O guerreiro do sertão;

  • A história do padre Cícero e os coronéis do Cariri;

  • O mito da independência e o estouro do caldeirão;

  • A história do plebiscito: golpe ou transformação;

  • A história do movimento estudantil no Brasil;

  • O movimento Diretas-Já na história do Brasil;

  • O plano FHC e o regime do terror;

  • 500 anos de história da dominação do Brasil;

  • A exploração do Brasil e os efeitos da dívida externa;

  • Preserve a água: fonte da vida;

  • O manifesto comunista (comentado em cordel);

  • O império colonial na ALCA alça a América.

CANTORIA DE IMPROVISO

A cantoria de improviso ou de desafio é feita entre dois cantadores de viola um sempre rebatendo ou fazendo gozações com o outro de arrogância e gabolismo. A idéia do desafio de improviso é sempre levar vantagem, ganhar a "discussão", ser mais aplaudido pelos assistentes.

Vejamos um exemplo típico de cantoria de desafio a base do improviso.

Cantador Manuel Feitosa:

Meu nome é Manuel Feitosa

De Itaporanga sou filho,

No verso e também na prosa

Sou que nem vapor no trilho:

Zangado eu descarrilho

Galopo rapidamente

Corro de traz prá diante

Rimo de diante prá traz

Sou qui nem roda valente

Começo e não findo mais

 

Responde João Messias:

Sou o rei das cantorias

Como eu outro não há

Eu me chamo João Messias

Sou filho de Propriá

Nas armas sou bom guerreiro

Triunfo pela razão,

Açoito como tufão

Brigo como cavalheiro

Percorri todo o sertão

Durante o mês de janeiro

 

Muitos improvisos foram feitos sem desafios, ou seja, individualmente:

Cantador Bernadino Ramos:

Quando eu pego na viola

E corro o dedo no prima

Se as águas corre pra baixo

Eu faço subi prá cima,

Quem tiver na lei do cão

Eu passo prá lei divina.

 

Protesto de Rufino Moreira, impaciente pela demora em ser despachado numa bodega, por que perto do balcão uns bêbados discutiam:

Moço me preste atenção

Venha aqui me despachá,

Num ligue esse cabra falá

Avie logo que o patrão

Tá me esperando acolá.

Desgraçado do balcão

Que cachaceira encostá

É cuspe, é fumo, é questão

O diabo é quem vorta cá!

 

A LITERATURA FOLCLÓRICA NARRATIVA

MITOS

Os mitos sergipanos não oferecem muita originalidade, segundo o folclorista Câmara Cascudo. Para ele os mitos locais não são muito diferentes dos encontrados em outras regiões do país. Os prinicpais são: a caipora. O fogo corredor (ou boi-tatá), a mula sem cabeça (Mula de padre), e o Lobizône (lobisomem). Os poucos mitos locais conhecidos são:

João Calafuz, é uma espécie de duende, que aparece em algumas noites surgindo das ondas do mar como um facho luminoso e colorido. Esse mito existe entre as comunidades de pescadores do litoral norte de Sergipe, nos municípios de Pacatuba e Ilha das Flores;

Zumbi é um duende noturno que aparece nas matas dos antigos engenhos e nos caminhos, assustando as pessoas com seus olhos de fogo;

Nego D’água é o espírito que surge nas águas do rio São Francisco assustando canoeiros, pescadores e lavadeiras

LENDAS

A criatividade do povo sergipano é responsável pelo surgimento e divulgação de muitas lendas que permanecem vivas na memória de muita de muita gente na atualidade. Muitas de nossas lendas são baseadas em episódios reais de caráter histórico ou religioso. Outras tratam de elementos da geografia local, quais sejam: rios, serras, grutas, poços, brejos, envolvendo façanhas de personagens humanos ou sobre-naturais. Vejamos alguns exemplares:

  • Tesouros em ouro e prata escondidos pelos padres jesuítas em Japoatã e num túnel da gruta de

  • pedra furada em Laranjeira;

  • O poço encantado que enche repentinamente no rio Vasa-Barrís, azendo desaparecer redes e

  • gererés dos pescadores, próximo à estrada que liga Itabaiana a Lagarto;

  • A fuga da imagem de Santo Antônio da Igreja matriz de Lagarto para sua antiga capela próxima

  • ao antigo sítio Angola Cachorro;

  • Os sons misteriosos de gritos, choros, gemidos e avalanches, ouvidos as altas horas da noite na

  • serra da Miaba (Campo do Brito);

  • O riacho encantado que fazia atolar e desaparecer carros de bois com seus passageiros, no

  • mangue do Manoel Preto, próximo ao morro do Urubú em Aracaju;

  • O carneiro de ouro que é visto ao entardecer ou em noites de luar no topo da serra de Itabaiana

  • Acredita-se que quem o vê morre em seguida;

  • O sino de prata que toca na Sexta-feira santa no fundo do rio Vasa-Barrís, deixado alí pelos

  • Jesuítas no local chamado "Pedreiras";

  • As aparições do fantasma de uma moça de cabelos longos vestida de branco, que teria sido

  • assassinada por um homem a quem ela negará-lhe amor. No local foi erguido uma santa cruz.

  • Assim teria surgido o nome do povoado "Cruz da Donzela" no município de Malhada dos Bois.

CONTOS

Muitos são os contos do folclore sergipano. Vários deles são regionais e nacionais, sofrendo apenas adaptações locais. Os contos são de origem européia, indpigena e africana.

Européia - "O Pinto Pelado", "Moura Torta", "Maria Borralheira", "O Sapo Casado" e "O Cágado e a Festa no Céu".

Indígena - "O Cágado e o Jacaré", "A Garça e a Onça", "A Onça, o Veado e o Macaco", "A Onça e o Coelho".

Africana - "Melancia e Coco Mole", "O Caboclo Namorado", "O Macaco e o Aluá".

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