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José Cândido o compositor da música ‘Carcará’

03/03/2008 09:28
OsmarioSantos

José Cândido da Silva nasceu a 11 de março de 1927, no sítio Puxinanã, na cidade de Santana do Ipanema, no Estado de Alagoas. Seus pais: Enoque Alves da Silva e Quitéria Carneiro da Silva.
O pai foi pequeno agricultor, mas até conquistar a sua terra por muitos anos viveu como trabalhador braçal. Dele, o filho, além de herdar 12 tarefas de terra, recebeu como maior presente lições de honestidade e de honrar a palavra. "Eu digo sempre que eu gostaria de nascer num planeta onde o homem tivesse palavra".

A mãe ajudou o pai no trabalho diário da roça, plantando e arrancando feijão. Depois, tornou-se costureira para preparar as roupas de seus 12 filhos e ainda conquistar uns trocados que eram bem-vindos no complemento das despesas da casa. Com ela, o filho diz que aprendeu a ter amor à família.

A infância e juventude de José Cândido foram de trabalho na roça. "Pobre, trabalhando muito, mas de barriguinha cheia. Não faltou o leite e a fruta. Trabalhava desde a hora que acordava até a hora de dormir. Ia buscar água em cima da serra e carregava tudo da roça. Aos 14 anos já estava em cima de um carro-de-bois trabalhando como carreiro".

Como não existia escola pública no lugar onde morava, o pai e um vizinho contrataram um professor para ensinar as primeiras letras aos filhos. Graças à louvável iniciativa, o menino José Cândido aos 11 anos de idade conhece o ABC e aprende a escrever o nome. "Com três meses de escola, um adolescente brigou com o professor e quis cortá-lo de foice. O professor correu assustado e até hoje não voltou", relembra, rindo.

Aos 14 anos, começou a gostar de caçar passarinhos, preás e outros animais de pequeno porte que existiam em quantidade no sertão. Usava uma espingarda de carregar pela boca. Um dia de sábado do ano de 1942, é convidado por um colono para uma caçada. "Carreguei a espingarda com uns 20 caroços de chumbo. Entramos no mato e antes de encontrar qualquer caça para atirar tentei transpor um obstáculo, caminhando por cima de uma baraúna caída. De repente, a arma escorregou da mão, bateu com o cano numa pedra e disparou acidentalmente toda a carga, que atingiu a minha barriga. Apavorado, gritei pelo companheiro Pedro Cassiano. Ele me socorreu às pressas, mas verificou que não era tão grave. Isso aconteceu às 13 horas e consegui ir para a casa sem problemas maiores.

Era um dia de feira na cidade e meu pai só voltaria à tardinha, quase noite. Minha mãe ficou com um filho baleado em casa sem saber o que fazer. Quando meu pai chegou e soube do ocorrido na porta de minha casa, nem chegou a tirar a sela do cavalo e correu atrás de socorro. Não demorou muito quando meu pai chegou com um senhor já de idade, Bernardino, trazendo uma seringa e uma garrafa de aguardente na mão", conta.

"O homem botou um pouco da cachaça em uma vasilha, ateou fogo, deixou queimar alguns minutos, apagou o fogo, colocou o líquido que sobrou na seringa e enfiou no buraco produzido pelo tiro. Apertou a seringa até esvaziar o que restou do aguardente. – Está feito o curativo – disse ele –, amanhã eu volto. No dia seguinte, cumpriu a promessa e fez outro curativo com cachaça queimada. Ficou 15 dias fazendo a mesma coisa. Após esse período, a bucha, pedaços do cinto e parte dos chumbos começaram a ser expelidos espontaneamente. Aquilo me deu um grande alívio e imediatamente começou a sarar".

"Santo não cobra, diziam os céticos. Estão enganados. Durante esse triste episódio, me peguei com uma santa, cujo nome não sabia direito. Apenas tinha conhecimento que era uma santa matriarca de uma igrejinha situada na entrada da cidade. Prometi que se ficasse bom eu lhe ofertaria duas dúzias de fogos".

"Recuperado, de volta ao trabalho, não paguei a promessa. Não me esquecera, mas o tempo foi passando. Em 1982, 40 anos depois, nunca contara a ninguém sobre a promessa que havia feito. Estava na casa do meu filho Itamar, numa bela tarde, deitado numa rede na varanda, descontraído, divagando, pensamentos distantes. A mulher do meu filho era chegada a receber entidades espíritas. De repente, meu filho, que se achava no interior da casa, apareceu assustado e falou: - Pai, o senhor está devendo uma promessa e deve estar lembrado. Realmente eu não estava esquecido. Imediatamente me vieram à mente os acontecimentos do passado. Este fato se deu em Aracaju. Peguei um ônibus e fui a Santana do Ipanema, comprei os fogos prometidos, estourei todos eles e ainda tive de pedir desculpas".

Após quitar a dívida, ficou sabendo que a santa que seria a sua protetora espiritual era Nossa Senhora da Conceição. "Meu primeiro filho nasceu no seu dia 8 de dezembro e só me vem dando glórias ao longo desses anos".

Com a visita do tio Marcelino Alves, residente em Aracaju, a Santana do Ipanema, recebeu o convite para ir morar com ele em Aracaju. Aceitou, mas teve que lutar muito para conseguir a permissão dos pais, mesmo contando com a ajuda do tio. "Saímos no domingo às quatro horas da tarde e chegamos na terça-feira às seis horas da noite. A mesma viagem hoje eu faço em três horas e meia".

Aos 17 anos de idade, chega em Aracaju no dia 31 de janeiro de 1945 e passa a morar na residência do tio, na rua Vitória, 361 (atualmente rua Carlos Bulamarque).

Logo consegue emprego na Refinaria Jaspe, de Benildes Vieira de Araújo, graças à interferência do tio, que fez apresentação do sobrinho ao empresário. - Senhor Benildes, apresento aqui o meu sobrinho José Cândido, que veio morar comigo e tentar a vida em Aracaju. – Prazer. É um rapagão! Sabe ler?, indagou. – Muito pouco ou quase nada. – É uma pena, pois poderíamos aproveitá-lo no escritório, mas sem instrução é impossível. A não ser que ele queira trabalhar na refinaria com outros operários. – Ele topa trabalhar em qualquer coisa. Se é assim, pode começar amanhã mesmo. No primeiro trabalho passou o tempo de dois anos e um mês. Só saiu pelo convite que aceitou de melhorar de vida em um outro emprego, feito pelo dono de um colega da República onde se instalou depois de morar com o tio um ano e 25 dias. "Era Lino Dias, que tinha uma loja na rua Santa Rosa, onde vendia diversos artigos. Lá eu trabalhei dois anos e poucos dias. Quando estava trabalhando no comércio, por um tempo fui servir no Exército, onde muito aprendi em matéria de disciplina e tudo. Gostaria até de ter ficado, mas isso não ocorreu, pois nesse tempo eu estava noivo da mãe de meus filhos, Celina Mecenas. Estava com seis meses de farda e já preparado para ser cabo quando fui licenciado. Minha noiva pediu a um capitão a minha dispensa, pois ela queria se casar. Voltei ao trabalho e me casei no dia 26 de maio de 1949".

No ano de 1950, com o dinheiro da indenização da sua saída da firma Lino Dias, deixa a mulher em Aracaju e parte num avião bimotor da Transcontinental rumo ao Rio de Janeiro, onde se abriga na casa do irmão Mário, que trabalhava como pedreiro. "Saí às 7 horas e cheguei às 15 horas. A casa do meu irmão era uma tapera velha de três cômodos pequenos e abrigava 16 nordestinos. Além do meu irmão, havia três primos".

Na terceira semana no Rio de Janeiro, sentindo que o dinheiro estava acabando, saiu em busca de trabalho. Como havia inaugurado uma usina de espalhar arroz e ao saber que estava precisando de gente, apresentou-se e começou a trabalhar carregando sacos de 60 quilos de arroz bruto, levando para as máquinas de debulhar e depois empilhando os sacos com o arroz já despalhado. No terceiro dia, às três horas da madrugada, uma hora antes de terminar o seu trabalho, que começava às 16 horas, senta-se numa pilha de sacos para descansar, pois já não agüentava mais. O gerente foi até José Cândido para saber o que tinha acontecido. Depois de
ouvi-lo, respondeu que no emprego ninguém podia descansar fora de hora. Levantou-se e foi para casa, só voltando ao local do trabalho para receber as contas.

Tomando conhecimento por anúncio de jornal que a Light estava admitido homens para os cargos de motorneiro, condutor e fiscal, não perde tempo. Numa fila gigantesca, tem paciência e conquista o seu espaço para trabalhar como motorneiro. "No dia seguinte, já estava às quatro horas da manhã munido dos documentos solicitados e trajando o melhor terno de linho que possuía". A Light o colocou num curso para motorneiro e José Cândido conquistou aprovação. "Foram 39 anos e meio trabalhando no Rio de Janeiro, sendo 12 anos como motorneiro da linha circular Copacabana, Leblon e Ipanema. Como acabaram com os bondes e a Light entregou o serviço de transportes ao governo, eu fui distribuído para a Secretaria de Transportes. Vendo que o bonde ia se acabar, fiz um curso de datilografia e já fui para o novo emprego como datilógrafo". Conta que se aposentou como escrevente datilógrafo.

Tão logo assegurou emprego, tratou de sair da casa do irmão e alugou um quartinho num verdadeiro covil de prostitutas, situado na rua Comandante Maurity, 122, paralela à Marquês de Sapucaí. "A minha situação financeira era precária. Danei-me a fazer hortas tentando quitar as dívidas".

Nessa época, começa a freqüentar os auditórios das rádios Nacional, Tupi, Tamoio, Marick Veiga e outras. "Numa bela tarde de sábado, assisti a um show dos sete "Gonzagas" – o velho Januário, Luiz, Severino, José, Aloísio, Socorro e Chica – no auditório da rádio Tupi, inaugurando a TV do mesmo nome. Foi a coisa mais linda que já vi em minha vida. Daí cresceu em mim o sonho de compor, principalmente baião. No meu quartinho, comecei a formar versos e a tirar sons da garganta. O mais difícil era o motivo a ser explorado e desenvolvido. Em pensamento voltava às minha origens. Dessas lembranças nasceu ‘O Cabelo da Boneca’, minha primeira música. Daí em diante, foram aparecendo os temas e os motivos. Desenvolvi-os até chegar a um grande acervo".

No dia 3 de maio de 1955, fez a estréia como compositor, gravando três músicas com o cantor Aldair Soares, do Rio Grande do Norte, que fazia sucesso no Rio de Janeiro naquele tempo cantando baião. "O conhecimento mais rápido com personalidades do campo da música foi por intermédio de João Batista do Vale (João do Vale), meu parceiro em 11 músicas. O conheci na praça Tiradentes. Um dia, eu estava conversando com o famoso Nelson do Cavaquinho, já tinha um pouco de músicas feitas e não conhecia João do Vale. De repente, ele chega. Conhecia o Nelson, começou a conversa e falamos de música. Na saída, numa certa altura da noite, João me perguntou se na minha casa eu tinha um lugar para ele dormir, pois ele era servente de pedreiro e estava dormindo na obra, sem nenhum conforto. Disse que tinha uma cama sobrando e ele aceitou ficar morando comigo pelo tempo de cinco anos. João do Vale já tinha gravado a música "Estrela Miúda", com Marlene, e "Madalena", com Zé Gonzaga, e com isso já tinha penetrado no meio musical. E eu estava tentando naquele momento. Como eu trabalhava muito e não tinha tempo em viver na boemia, pedi para que ele tentasse colocar minha música no pedaço. Quando foi de repente, ele me mandou ir na Colombo para assinar o contrato da música ‘Cabelo da Boneca’. Fui, assinei o contrato e no dia da gravação fui assistir".

Da parceria com João do Vale saíram várias músicas, inclusive gravaram 11. "Mas ele entrou na minha música pela influência que ele tinha. Ele levava música que eu fazia e quando tinha um cantor para gravar já chegava pronto, tendo como autores ele e eu. Ele aproveitou muito, inclusive a música "Carcará", que é minha. O nome dele está lá, o meu também. Tenho músicas gravadas por Maria Bethânia, Caetano Veloso e muito mais gente",

Já aposentado, deixa o Rio de Janeiro no dia 11 de janeiro de 1989 com destino a Santana do Ipanema, em Alagoas. Em 11 de fevereiro de 1992 chega a Aracaju para ficar. É autor de dois livros e se sente realizado, feliz e tranqüilo com a certeza do dever cumprido. Sente-se também privilegiado pelo criador. Diante de todas as conquistas, só tem a agradecer a Deus.


 


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